Moda & Arte: Entrevista Marcio Banfi

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Stylist e artista plástico, Marcio Banfi vem atuando a mais de 15 anos em todas áreas possíveis dessas profissões que se cruzam em muitos momentos.

Atualmente assume a edição de moda da revista ‘Gloss’, cargo que já exerceu em otras publicacções como ‘TPM’, ‘Capricho’ e ‘Simples’, ministra cursos de styling e está preparando uma mostra individual para o fim deste ano.

1-Formação em artes plásticas, como foi parar no mundo da moda ?
Sempre gostei de moda. Assim como sempre gostei de arte e música.
Comprava os jornais de música como NME e também a revista The Face no aeroporto que sempre levava meu pai para as viagens que fazia a trabalho para Curitiba. Consequentemente olhava sempre com admiração e interesse os editoriais, e cada vez mais conhecia os estilistas. Essa atração por moda foi num crescente.

De qualquer forma nunca pensei em fazer faculdade de moda. Meu desejo era a arte. Sempre achei que dava para fazer os dois, uma mistura mesmo. Admirava uns clipes de bandas e achava aquilo pura arte e moda. Foi quando entrei na faculdade de Desenho Industrial a pedido do meu pai que achava que artes era um hobby. Desisti do curso no início do terceiro ano e resolvi voltar do zero em artes plásticas.

Nessa troca fui convidado pelo estilista Alexandre Herchcovitch para participar no seu desfile de formatura. Ficamos muito amigos e ele foi um dos grandes responsáveis pela minha paixão por moda crescer mais ainda. Trabalhei um tempo como assistente dele, queria aprender um pouco de modelagem e costura para meu trabalho de arte. Era o boom da moda no Brasil… as semanas de moda estavam começando, um monte de revista legal rolando… os profissionais mais bacanas aparecendo e sendo respeitados…

Um tempo depois uma revista internacional lançada por um tempo aqui chamada Sportswear estava precisando de um editor de moda e uns amigos trabalhavam na arte da revista. Acabei indo sem fazer idéia do que eu faria lá, e mesmo como funcionava. Ralei muito. estudei, descobri coisas, fui atrás, virei produtor freelancer. Até matéria de calculadora eu produzi. E assim foi indo…

Perfomance Cabeça de Flores (2005)

Perfomance Cabeça de Flores (2005)

2-Com tantos anos no ramo, como define o trabalho de um stylist ?
Eu acho que stylist é um “fazedor de imagens”. É a pessoa responsável por tornar mais fácil e visualmente possível uma idéia. Acredito que a imagem de moda é uma das coisas mais complicadas de se compreender no ramo. Ter uma idéia e passá-la para uma imagem que desperte desejo, se utilizando de uma linguagem pré estabelecida da roupa em si. Mesmo que não as use. É claro que também há a parte “burocrática”… Ter conhecimento sobre história da moda e costumes, cultura em geral, noções de edição, saber e entender para que público você está falando, saber usar as proporções, etc, etc, etc…

Caderno de Moda - Folha De São Paulo (2008)

Caderno de Moda - Folha De São Paulo (2008)

3-Em quais situações a moda mais se aproxima da arte ?
Principalmente no desejo de expressar algo. Ambas são veículos para se dizer o que se pensa imageticamente.
Acho que arte e moda são duas mídias diferentes, porém andam em uma linha paralela muito próxima e em alguns momentos uma esgorrega e cai na outra. As diferenças são as utilidades. A moda se refere sempre à roupa. Sempre vai discutir o “vestir”. Ainda que não vista absolutamente nada, dizer sobre a ausência de roupa é falar sobre ela, ou mesmo quando caímos em questões como: “dá para usar?”, é a discussão da roupa e da vestimenta. A moda tem a função direta ou indireta de vestir.

Liria Pristine - Foto: Debby Gram (2009)

Liria Pristine - Foto: Debby Gram (2009)

4-Revistas como ‘Simples’ e ‘KEY’ acabaram extintas por n motivos, você
acha que no Brasil existe espaço para publicações de moda com foco
mais seguimentado ou não tão comerciais ?

Sim, desde que não haja um grande interesse comercial nisso. Não dá para achar que vai ficar rico abrindo uma revista extremamente conceitual de moda. É muito gasto, muito trabalho. E querendo ou não a moda conceitual é segmentada. A história da moda no Brasil é recente, não temos cultura de moda.
Mas acredito que dá para fazer coisas comerciais e ser bonito visualmente. Esse é o desafio.
Sinceramente para mim é mais fácil fazer coisas mais conceituais do que comerciais. Minha experiência tanto na Key quanto na Simples foi de extrema liberdade. Na Simples, quando eu entrei existia o desejo de torná-la um pouco mais “possível”. Tentamos fazer isso. Mas de forma livre, com imagens bonitas. Tínhamos colaboradores incríveis (Dudu Bertholini, Márcio Simnch, Daniel Klajmic). Várias pessoas queriam trabalhar conosco. Exatamente pela liberdade. Era muito legal.
Na Key, não foi diferente. Tudo que eu fiz na Key eu vou ter certamente para sempre em meu portfólio. A Erika me deixava extremamente livre para criarmos o que quisesse. Acho extremamente triste que a revista não é mais publicada.
Mas é aquilo… é difícil, trabalhoso, burocrático, complicado… não é fácil não…

Revista KEY (2008)

Revista KEY (2008)

5-Se pudesse vivenciar um período ou episódio na história da arte qual seria ?

Gostaria de ter conhecido a artista Louise Bourgeois. Porque ela foi uma das mulheres mais interessantes que o mundo já teve.

6- Analisando suas obras percebi que utiliza na maioria das vezes
seu corpo como suporte para expressão de idéias, como é esta relação? Existe um elo comum nos seus trabalhos artísticos ?

Sim. O corpo é uma das coisas que mais me interessa nos meus estudos na arte. Tenho utilizado o meu corpo especificamente nos últimos anos, mas desde sempre me intrigava o tanto que sentimos falta de alguém. Acho que a ausência de um corpo foi o ponto de partida para tentar achar o meu caminho na arte. Hoje o corpo já diz outras coisas no meu trabalho. Principalmente questões de identidade, existência, abduções…

"Fonte" (2007)

"Fonte" (2007)

7-Como é o curso de styling que você ministra ? Para quem é indicado ?
Tento fazer o máximo para que as pessoas vivenciem coisas importantes para um trabalho de stylist. Na época que eu comecei não havia um curso. Tinha um centésimo dos profissionais que existem hoje. Então penso em exercícios de criação de uma idéia e conceito, exercícios de proporção, edição, e também tudo que envolve o trabalho: trilha sonora, imagem de moda, história da moda, publicidade, personal shopper e personal stylist, vídeo clipes, etc.
O curso é direcionado àqueles que realmente sentem desejo em se tornarem stylists, ou mesmo editores de moda.

Tributo a Ney Matogrosso - Revista Junior (2008)

Tributo a Ney Matogrosso - Revista Junior (2008)

8-Conte-nos algo que poucas pessoas sabem sobre você.
Hahahaha. Bom…. tive duas bandas de rock: uma gótica chamada Malefic Zenith of Flooding e outra chamada Elevador. O Elevador foi há relativamente pouco tempo… mas acabou. Até porque eu não sei tocar nada… mas adoro música. Acho que outra coisa é que eu cozinho (sem falsa modéstia) muito bem!!

9-Quais seus planos para um futuro próximo ?
Estou com uma viagem marcada para passar o Natal em Nova York. Quero arrumar meu acervo pessoal (coleciono peças de roupas antigas… tenho mais de 2.000 peças), tá bem bagunçado!
Ah e quero continuar dando aula. É uma coisa extremantente prazerosa para mim. É revigorante. E quero também continuar meu trabalho na Gloss. Está sendo uma das experências mais legais de toda a minha carreira.
AAAAHH, e esqueciii: dia 4 de dezembro abre a minha individual lá na Galeria Emma Thomas/ Baró, com 16 trabalhos inéditos!

Jogo rápido:

-Se não fosse stylist-artista seria: Chefe de cozinha ou veterinário
-Filme inesquecível: E.T. O extraterrestre (sei todas as falas, da primeira à última cena e tenho uma coleção de bonecos dele)
-Um blog ou site para seguir: Amo o Cute Overload e também o SHOWstudio ah, e claro o da astróloga Susan Miller.
-Leitura imprescindivel para estudantes de moda: Para os que gostam de fotografia o “Sobre fotografia” da Susan Sontag. Acabei de ler “O estranho na moda”, da Silvana Holzmeister e achei bem legal, mas um dos que eu mais gosto é “A edição do corpo” da Nízia Villaça. “Dicionário da Moda” do Marco Sabino é essencial.
-Atualmente estou escutando: Putz, tanta coisa… O novo do Antony and The Johnsons, que chama Swanlights, Blonde Redhead, Jean Michel Jarre, Prince Rama, Robyn, Salem……….
-Um lugar para sair em SP: O Alberta é bem legal. Apesar que não saio quase…
-Uma cidade do mundo: Rio de Janeiro
-Minhas maiores inspirações são: Meus amigos, meus amores, viagens, músicas, filmes…
-Me defino como uma pessoa: Tenso, ansioso, e bastante persistente como qualquer capricorniano.

http://www.marciobanfi.com/

@tete_almeida