Entrevista DER METROPOL

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Mario Francisco conferindo os últimos detalhes antes do desfile na última edição da CDC

Entrevista ao estilista Mario Franciso, nome a frente da marca Der Metropol

1- A Der Metropol acabou de apresentar sua última coleção na 27  Casa de Criadores, como foi?

A resposta foi melhor do que eu podia esperar. Lógico que eu esperava receber boas críticas, ninguém faz nenhum trabalho achando que será criticado ou algo do tipo, mas foram muitas críticas boas. E foi bom ler em alguns sites que, mesmo com uma mudança no direcionamento, a essência da marca permaneceu. Ao mesmo tempo em que a marca vem sendo reconhecida  ainda existe um desafio gigantesco que é chegar às ruas, vender, talvez o maior de todos principalmente quando você é pequeno e tem que ralar 2, 3 vezes mais do que se tivesse a grana certa pra investir na marca.

2-Em uma outra entrevista em referência a temporada passada você disse: “Algumas pessoas não entenderam a coleção definitivamente, acho que esperavam eternamente algum moletom ou então a mesma linguagem streetwear forever, mas não faz nem de longe a minha cabeça ficar parado no mesmo lugar apostando em jogo ganho ou então querer praticar “formulinhas” e assim enfiar um tiro no pé.”
-Como você recebe as críticas pós-desfile?

Isso foi logo depois da minha terceira coleção apresentada, a de verão 2010. A coleção anterior havia sido bastante elogiada também , vinha com uma proposta nova utilizando moletom como matéria-prima principal. Na verdade eu já vinha trabalhando muito bem o moletom desde a primeira coleção e a intenção era continuar trabalhando com o material como base das coleções, mas depois daquele desfile muito impactante da Osklen  com os moletons achei mesmo que precisava dar um giro de 90 graus pois tinha sido muito forte e outras marcas também começaram a usar o tecido e eu iria acabar parecendo uma caricatura de mim mesmo.

A partir desse desfile comecei a mudar o curso da marca a cada estação, sem que a essência se perdesse e foi bem difícil começar a fazer isso quando já eu tinha idéias pré-estabelecidas quanto ao rumo que eu daria para a marca.
Acho a crítica fundamental, tanto a boa quanto a ruim. Eu mesmo já recebi criticas que me deixaram mal mas relevei pois faziam sentido. O complicado é quando a coisa parte para o lado pessoal e desrespeitoso com o trabalho de quem quer que seja e o pior é quando você sabe que é pessoal.

Não é fácil trabalhar meses em cima de um desfile e depois ler alguma crítica jocosa que não é construtiva em nenhum aspecto. Não estou falando que os críticos e jornalistas devem levar isso em consideração e elogiarem todo e qualquer trabalho, muito pelo contrário. Um estilista só cresce e melhora através de outros olhares sobre as coleções que ele cria, mas deve-se ter um pouco mais de cuidado e respeito com quem quer que esteja ali mostrando o trabalho, além de responsabilidade.

Uma crítica ruim sem embasamento algum, apenas porque o jornalista conhece o estilista e não gosta dele ou não vai com a cara ou sei lá o que, pode prejudicar o relacionamento dos estilistas com os seus parceiros e patrocinadores e isso é ainda piro quando os estilistas são pequenos e é muito mais difícil colocar um desfile de pé. Agora se a crítica é ruim mas faz todo o sentido isso vai fazer com que o estilista perceba coisas que precisa melhorar no seu trabalho, as vezes muitas. O jornalista de moda é um formador de opinião e precisa entender a importância e o peso em relação as matérias e críticas que escreve, tanto para o bem quanto para o mal.

3-Qual foi o caminho traçado até chegar a CDC? Como iniciaste no mundo da moda?

Nossa.. fiz muita coisa. E muita coisa que não tinha nada a ver com moda. Já trabalhei como recepcionista de locadora de Video game, operador de telemarketing, repositor de supermercado, digitador de notas fiscais…
Comecei a trabalhar com moda realmente em 2002 quando já cursava a faculdade de moda. Na época trabalhava ainda fora da área e resolvi arriscar com algo que eu não encontrava no mercado e gostava muito que eram meias. Simplesmente não encontrava nada de novo no mercado.

Fiz um projeto, entrei no mercado mundo mix e a marca fez um sucesso bem grande por um bom tempo a ponto de eu ter que abrir uma loja 4 vezes maior do que o primeiro showroom que eu tive. A loja ficava no bairro dos Jardins. Não existiam meias coloridas  ou diferenciadas no mercado, a marca chegou a ser noticiadam inclusive no site da Erika Palomino.

E funcionou bem até o mercado se mexer e as cópias começarem a aparecer. Como não era fabricante era impossível concorrer com marcas gigantes que estavam no mercado há anos e minha marca acabou sendo massacrada. Acabei fechando e nesse meio período fui participando de concursos. Estudava no Senac e em 2003 fui classificado em primeiro lugar em um concurso feito em parceria com uma empresa grande de Cama , Mesa e Banho quando ganhei uma viagem de 1 semana com tudo pago para Paris. em 2004 fui eleito Melhor estilista pelo meu desfile e trabalho de formatura e ganhei uma bolsa de estudos de 3 meses na Esmod Paris.

Por causa do meu desfile de formatura fui indicado a trabalhar com o Mareu Nitschke que na época fazia SPFW. Fiquei com ele alguns meses até ir estudar na França pela bolsa de estudos, voltei e quis entender mais de mercado e trabalhar em marcas grandes. Fiquei na M.Officer por 1 ano e 2 meses e logo depois recebi uma proposta para trabalhar na TNG, onde trabalhei com o Henry Alavez e o Marcelo Sommer.

Assim que saí da TNG fui convidado a dar aula no Senac e foi quando comecei a conversar com o André Hidalgo. Ficamos cerca de 1 ano conversando, fiz um projeto, ele foi aprovado e entrei no Lab. Desde então continuo dando aula e fazendo parte do line up da Casa de Criadores.



4-Muitos dos que passaram pela CDC não conseguiram levar para frente suas marcas, quais
são as principais dificuldades para um estilista se consolidar no mercado?

Vender, encontrar pontos de vendas interessados em sua marca. O problema todo é ter o capital para investir também em uma produção, showrrom, lookbook. Isso tudo é bastante complicado. Fazer o desfile em sí já é caro demais e tudo o que se exige de uma marca para mantê-la de pé é ainda mais caro.
Acho que a maior dificuldade para a grande maioria dos estilistas pequenos é financeira. E o sonho de praticamente todos é conseguir um sócio investidor que acredite na marca , veja o seu potencial e invista.


5-Em sua coleção inverno 2011 a referência foi o filme Hellraiser, e para o verão tomou o Egito como ponto de partida, como se dá o processo de escolha para os “temas” de suas criações?

Surge absolutamente por acaso e pode ser qualquer coisa. A referência de Egito surgiu em uma reunião de faculdade. Quando me dei conta estava anotando características para uma coleção. Ela mudou bastante da idéia inicial e isso sempre acontece, mas o tema permaneceu o mesmo, apenas a maneira de trabalhar as referências.

A idéia do filme Hellraiser veio também por acaso e pela vontade de misturar moletons a outros materias inusitados como o vinil por exemplo, mas a coleção também acabou tomando outro caminho e trabalhei bastante com tecnologia têxtil, resinados, o foco era a experimentação têxtil.

6-Quem é o o menino-homem-garoto Der Metropol ?

Que consome cultura , da erudita a pop, despretensioso, inteligente e que dá valor as coisas que compra, extremamente ligado a internet, gosta muito de moda e é super ligado no que está acontecendo pelo mundo todo.
Os meninos do Neonico são os meninos da Der Metropol materializados, definitivamente.

7-Planos para um futuro próximo?

Meu maior plano seria conseguir um investidor mas independente disso fortalecer a marca e a meta é que ela saia efetivamente da passarela e ganhe as ruas aos poucos.



Jogo Rápido
-Se não fosse estilista seria: guitarrista ou músico
-Minha revista favorita é: Trip
-Meu livro favorito é: Apanhador no Campo de Centeio
-Atualmente estou escutando: misturo sempre coisas novas e antigas como coisas de 15 anos atrás tipo Alice in Chains e muito novas como o CD Infinite Arms da Band of Horses ou o novo do Foals.
-Um lugar para sair a noite em SP: Netão ou algum boteco despretensioso e com todo tipo de gente.
-Uma cidade do mundo: São Paulo / Paris
-Me defino como uma pessoa: Um pouco menos introspectiva hoje em dia, mas bastante tímido ainda e extremamente dedicada ao trabalho.

http://www.notjustalabel.com/dermetropol

Crédito de Fotos:

CDC (backstage): Felipe Abe – CDC Verão 2011: Marcelo Soubhia/Agência Fotosite – CDC Verão 2010:Fotos: Rogério Neves