… e não é que todos nós temos historias? Guardo comigo um monte delas, algumas que conto a todos em troca de nada, talvez um sorriso ou apenas me fazer próximo. Outras tenho que pensar 2, 3 vezes antes de contar, como se fosse possível saber se o outro merece ou não ouvi-las. E outras histórias que nem ouso lembrar e que vou guardar comigo por toda vida (essas últimas são coisas que vi ou soube de outras pessoas, acho que ainda não cometi algo de tão grave assim).
Mas e se eu contasse tais histórias? Se eu simplesmente ‘inventasse’ personagens e dissesse tratar-se de uma ficção? Será que esse baú de histórias deveria mesmo ser aberto?
Sempre escrevi, e escrevia diariamente, poesias, letras de musica, uma vez inventei escrever uma peça de teatro, e, sempre escrevi muitas cartas, muitos bilhetes românticos, suplicas e provas de amor. E quando as coisas se complicavam em casa, eu escrevia para os meus pais, escrevia aos meus irmãos… e se estava irritado com alguém, escrevia também, então chegaram os emails, listas de discussão, fóruns… e eu sempre escrevendo, impulsiva e vorazmente, defini um estilo raivoso, agudo, uma estilo neurastênico, arrogante e trabalhei esse personagem por muitos anos, as vezes eu mudava de nome, acreditando que ficaria anônimo na lista de discussão, não tinha jeito, em pouco, pouquíssimo tempo meu disfarce era revelado.
Ouvi muitas coisas sobre meu jeito de escrever, eu era capaz de numa mesma frase ser compreendido como engraçado irônico ou revoltado raivoso – meu afinco era única e exclusivamente desenvolver um estilo, uma identidade. E em casa me senti massacrado tantas vezes que ouvi que minha palavra escrita era doce e linda mas eu não. Das amadas recebi doses absurdas de julgamento pois se eu era simples, soava-lhes complexo e vice-versa. (Só posso atribuir tamanho gap a ‘coisas de mulher’). E muitas vezes ouvi que deveria ser escritor, mas como? Se quase nunca leio… se meu amor era pela música? Meu segundo amor pelas artes plásticas?
Se é que existe esse dom, virei meu rosto a ele, aceitei desafios mais difíceis, como o de espreitar outras formas sem ter talento, tentar inventar esses talentos ou talvez enganar a todos para expô-los ao ridículo que é o que são em sua maioria. Seria isso uma forma de arte? Uma perversão? Seria isso um plano mestre de arte conceitual? (Quem pode dizer? Eu posso! Mas não direi! Não aqui).
Em algum momento da minha paixão pelas artes entendi que (entre outras coisas) um bom artista, não precisa ser apresentado. Não precisa da plaquinha ao lado da obra, do ID Tag no mp3… sua criação está tão impregnada de sua personalidade e sua arte tem vida própria e transborda sozinha. Se sou um artista ou não, ora, é claro que sou, muita gente deve discordar mas outras que simplesmente ao olhar para mim já sabem que sou; e posso estar num supermercado, com chinelos um de cada cor, bermuda bege e t-shirt branca.. (aos que não tiveram a sorte ou azar de me conhecer: não uso de adereços públicos tipo: body piercing, tattoos visíveis (tenho 4 que guardo pra mim), cabelos coloridos, nem mesmo brincos… tenho a aparência de uma pessoa comum).
Cansei de ouvir em algum momento entre o final dos anos 80 e inicio dos 90 que arte é atitute! Desculpe se você é um dos que acredita nesse slogan de calças jeans de R$ 29,90 – mas não é ! Arte não é atitude. Se fosse, um terrorista seria um artista. (Quem sabe vou aqui explicar o que é arte… quem sabe?) Arte é a expressão criativa de uma personalidade, não existe arte sem personalidade.
Pense na coisa mais geométrica, matemática e chata… pensou? Existe arte nisso? Sim, as vezes existe sim! Uma arte assim é cheia de uma visão obsessiva, de uma busca por um modelo perfeito, uma necessidade latente por compreensão, aceitação…
Ora, isso me trás a outro ponto que adoro falar sobre arte. Arte não é divã para pessoas com problemas mentais, emocionais e de auto-estima, tais pessoas que busquem tratamento… um ator esquizofrênico não é um ator – é apenas um doente procurando sua morte. É comum as pessoas terem essa imagem atávica da arte que aprisiona, imaginar o artista torturado por sua dor, por sua vontade de criar. Isso realmente acontece em alguns momentos, mas imagine ter de ser assim por toda a vida? Isso faz de você um artista? Acho que não, a arte que se pretende é resultante da vida? Ou é algo que torna escravo o seu criador?
Nem toda a arte é feita por artistas. E muitos artistas jamais fizeram arte.
Alguns acham que a arte é o lugar onde reside a verdade. Outros acham que toda a arte é por si só uma mentira. Mas e os artistas? Acredito que os maiores artistas sempre souberam manobrar verdades e mentiras.
Arte é um dialogo.
Sou daquelas pessoas que levam mais a sério a arte espontânea que o trabalho meticuloso e técnico, assim, enxergo a arte como um prazer imediato, uma expressão manifesta, uma resposta, uma pergunta, um tema, um olhar, uma provocação, a criação de um fato…
E fiz esse preâmbulo enorme para fazer duas perguntas:
- Você é um artista ? Tem certeza que você faz arte ?




